Metodologia e vida acadêmica

Há tempos me pergunto acerca da relevância e método da disciplina que pesquiso. A melhor resposta que encontrei é esta: lidar com problemas, teorias e argumentos. Posto desta forma, não se esclarece muita coisa, pois disciplinas científicas também fazem isso. A natureza dos problemas filosóficos ainda permanece. Para clarificar a questão, o melhor mesmo é avaliar a atividade propriamente dita dos filósofos.

Até há uns 300 anos atrás, a filosofa se confundia com ciência. O método experimental como crivo para teorias falsas surgiu inicialmente com o que se conhece hoje por física. De lá pra cá inúmeros problemas filosóficos obtiveram atenção de cientistas e encontraram respostas.

Houve recentemente uma pesquisa que infelizmente não contemplou o brasil, onde se pergunto aos filósofos acerca de sua posição teórica em tópicos considerados filosóficos por natureza como a existência de Deus e o conhecimento. Os dados estão expostos aqui.

É uma característica interessante mencionar algo que por vezes se esquece.

Hoje a ideia de filósofo está associada as grandes universidades e aos maiores nomes. Há divisões claras de questões, sendo as duas maiores linhas de pesquisa metafísica e epistemologia.

Mas e quanto as ideias e inovações ocorrendo fora da universidade, será que os filósofos acompanham e incorporam em suas discussões? É importante notar que há autores que não se limitam a trabalhar em uma linha somente devido ao mundo
não ser fatiado a nosso gosto. Pode-se afirmar que isto é por questões de organização, e classificar obras sem um perfil definido fica a critério da recepção que temos.

Por outro lado, esse modelo institucional está passando por mudanças, pois o conhecimento sendo transferido para o ambiente online retira a necessidade de diplomas, e alguns setores necessitam apenas de comprovação prática.

A médio prazo penso que a academia será enxugada, permanecendo apenas aqueles que se mantiverem atualizados em aplicações tecnológicas.

Academia: Parte 2

Qualquer pessoa cientificamente informada sabe que há uma crise no modelo de publicação mundial. Diversos estudos não são replicados, os critério de aceitação são duvidosos, as taxas cobradas pela leitura de artigos é exorbitante. Em resumo, a universidade é basicamente sinalização de status e não resposta de problemas.

Uma das saídas propostas é adotar modelos alternativos, como jornais de acesso público. O ensino online é bastante responsável por esta mudança. Pra que escutar um tolo qualquer se você pode ter acesso ao melhor professor do mundo na sua especialidade? Informação de qualidade por um preço baixo. Assim como em outros setores, a concorrência é uma das melhores formas de retirar os ‘fakers’ do jogo.

Obviamente, há maneiras de simular qualidade, utilizando jargão desnecessário e estatísticas sem sentido. No entanto, com este sistema de correção mútua, fica mais difícil a passagem de material de baixa qualidade, assim como a Lei de Sturgeon afirma, 90% do que se produz intelectualmente é lixo. Disso se segue que a formação de clusters é algo inevitável, mas com a crítica agora pode ser feita por diversos especialistas, o nível de exigência e critério de avaliação muda.

Nacionalmente este processo irá chegar – assim como outras inovações – com algum tempo de atraso. Porém, meu caro professor arcano de sabedoria profunda, será adotado. Inicialmente, porque as informações circulam com maior velocidade, e segundo, porque já é visível a ineficiência da academia perante a indústria. Um projeto para ser aprovado no mundo acadêmico leva de meses a anos, enquanto dentro de uma empresa isto ocorre dentro de semanas, porque se percebe de imediato a perda que se irá ter caso haja algum delay.

Para não perder a oportunidade, a área a qual me dedico – filosofia – recentemente lançou um jornal de acesso público: Ergo.

Tempo e Notas(acadêmicas)

      Wittgenstein foi um gênio que se recusou a ler os mortos, pois havia muitos. Assim como poucos, reconheceu que seu tempo era limitado, e tinha de escolher entre desenvolver suas teorias ou passar a vida a repetir ideias alheias. O mundo acadêmico de lá pra cá mudou muito, mas a premissa básica se mantém: há um conjunto básico de conhecimento acumulado o qual absorver, e para isto serve o ensino institucionalizado.

     Admito que há inúmeras propostas de reforma, mesmo em comunidades epistêmicamente probas, há problemas de publicação.  O ponto aqui é reconhecer algo específico: para algumas pessoas o critério de avaliação erra o alvo. Não porque as salas são compostas por intelectos superiores, mas sim porque a qualidade é difícil de  reconhecer, as pessoas não são transparentes, e o critério de avaliação deve ser exterior as preferências pessoais.

      Em geral, suspeito que por vezes os professores usam a intuição e não um procedimento minimamente sensato para avaliar. E isto é mal. É mal porque incentiva o aluno a priorizar qualidades que agradam A e B, e não a desenvolver suas ideias. Mas como o tempo é limitado, escolhe-se entre ler o que lhes apetece, ou obedecer o mestre. Por questões pragmáticas, a generalidade adota a segunda opção: comporta-se como aluno exemplar, pois assim terá seu Lattes limpo. Nacionalmente isto significa quantidade, você elabora um projeto de pesquisa, e se alimenta dele até a CAPES dizer ‘chega!’.

     O resultado disto são hábitos perversos: assédio moral, terrorismo intelectual e nepotismo. Este estado de coisas está presente em todas as disciplinas em maior ou menor grau, mas há países onde a porcentagem de pessoas que os praticam supera o limiar tolerável, fazendo com que todo o sistema entre em colapso, necessitando de uma reforma completa. Penso que nosso país está próximo de atingir este ponto, todavia, há pessoas como o Nicolelis, sugerindo mudanças que urgem serem implementadas. Se iremos adotá-las em tempo, é algo que saberemos nos próximos anos.

Confundidos pelo Cânone

A espécie humana, assim como outros primatas  tendem a imitar aquilo o que funciona. Na academia não é diferente, normalmente não iniciados copiam de forma tosca o que os professores dizem e fazem, e só depois de um tempo adquirem autonomia para perceber onde podem ser originais. Isto pode ser extendido para qualquer grupo, contudo, naqueles baseados em dogma, se rebelar não é visto com bom olhos.

Este comportamento não é de todo mal, para produzir algo original é necessário conhecimento acumulado. No entanto, há muito encenação.  Até os físicos perseguem fantasmas, quando desviam grande parcela dos seus recursos para uma linha de pesquisa, e deixam de avaliar abordagens não tão “quentes”.

Seguir os maiores nomes de uma ciência ou linha de pesquisa ajuda a saber o que alguém que se destaca produz, mas não responde como esta pessoa chegou lá.  Responder uma questão nem sempre depende de habilidade técnica. Muitos insights foram obtidos em situações incomuns, e geraram aplicações posteriores que não estavam nos planos de seu descobridor. O laser e a internet são exemplos que vem a memória.

Além disso, uma série de pensadores surgiram a margem das idéias mainstream. Céticos, anarquistas e alguns iluministas não eram acadêmicos, e deram  boas contribuições. Mas na situação atual, encenar somente não é suficiente, tem que se encenar com proprieda. O mercado força os indivíduos a darem respaldo,  através de sinalizações, como  publicações e conferências.