Melhor nunca termos nascido

Better

Em Better Never to Have Been, D. Benatar expõe argumentos defendendo a ideia de que seria melhor jamais termos nascido. O ponto principal do livro até onde entendo, é a assimetria conferida entre vida e morte. Uma não-existência teria valor 0, enquanto uma existência sofrida, teria valor negativo; comparando as duas, a primeira opção dominaria a segunda, pois 0 > -1, ou seja, seria melhor sequer termos nascido. Um ponto importante a ser notado, é que atribuir um valor cardinal a vida humana é algo que pressupõe a comensurabilidade da vida, isto é, você pode atribuir valores e comparar vidas.

Quem pense ser a vida algo incomensurável, dificilmente aceitará a proposta acima, tampouco considerará seja o que for acerca da ética populacional, que lida com questões envolvendo populações futuras.

Além disso, a pressuposição que alguns poderia objetar é o fato de a maioria das pessoas terem uma vida repleta de sofrimento, não só agora, mas ao longo da história. No entanto, poderíamos afirmar que todas as vidas, somente por virem a existir, possuem valor positivo, ‘independente do que ocorrer durante a vida’. Anencéfalos, crianças que morrem prematuramente teriam valor positivo, ainda que vivessem por um período de tempo curto. O mesmo vale para pessoas que vivem em miséria absoluta.

Avaliando os argumentos do livro, concluo que a proposta não vinga. O motivo principal diz respeito a inferência que pode ser feita a partir daí. Se aceitarmos o argumento do livro, podemos afirmar, sem grandes perdas, que seria melhor todos se suicidarem, evitando uma vida sofrida.

Outro motivo reside na recusa em aceitar que pessoas nasçam. Se  pessoas em potencial estão melhor não existindo, trazê-las a vida seria uma violação moral gravíssima, pois provavelmente estaríamos destinando a pessoa a uma vida repleta de sofrimento. Sendo um pouco menos exigentes, poderíamos afirmar que é permissível as pessoas em países desenvolvidos ter filhos, enquanto as em países subdesenvolvidos, não. Esta segunda inferência também não aceito, já que sugere um controle de natalidade severo.

Sendo assim, mesmo que o raciocínio exposto no livro não contenham nenhum falha lógica e que se aceite a premissa da assimetria entre pessoa vivas e aquelas não existentes, ainda assim seria bastante difícil aceitar a proposta, vide que ainda em uma situação indesejável, há pessoas que preferem viver a não existir.

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