Ciência Subjetiva

A primeira lição que se ensina em um curso de ciências sociais é que pensamos relativamente ao nosso grupo. Isto nem sempre é óbvio, pois tendemos a assumir que nosso modo de vida é  ‘o’ modo de vida. No entanto, na história da ciência, temos sugestões muito mais fortes, cuja as implicações já não são tão óbvias.

Soube hoje que os cientistas são parciais e o ideal de imparcialidade é uma ficção. Até ai, sem problema, a questão reside no alcançe dessa proposição. Um físico ficará preocupado caso haja uma diferença de duas casa decimais entre suas previsões e o resultado empírico. Todavia, um economista não.

A exigência para cada ciência é diferente, assim como o método. Disso se segue que se não podemos esperar que todas se desenvolvam com igual velocidade, e a história está ai para provar isso. Mas há similaridades. Uma matemático sabe que as ferramentas desenvolvidas por seus estudos podem ser encontrados em vários níveis de realidade.

Afirma-se que a imprecisão das ciências sociais reside no seu recente nascimento, e que ainda precisa alcançar a maturidade. Aceito este argumento, mas não algumas implicações. Por exemplo, qualquer economista defendendo a liberdade de mercado é um burguês defendendo sua classe. A resposta a esta abordagem já foi avançada por Popper, que aceita a limitação dos cientistas, e a influência do seu grupo social, mas rejeita o relativismo.

A grosso modo, afirmar que a pessoa pertence a um grupo não contribui muito para o debate, pois este é um pressuposto aceito pela generalidade das pessoas. Recusar os argumentos de alguém por ele pertencer ao grupo A ou B é ceticismo injustificado, pois o maior idiota do mundo pode afirmar que o sol está brilhando, mas isso não fará ele se apagar.

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Melhor nunca termos nascido

Better

Em Better Never to Have Been, D. Benatar expõe argumentos defendendo a ideia de que seria melhor jamais termos nascido. O ponto principal do livro até onde entendo, é a assimetria conferida entre vida e morte. Uma não-existência teria valor 0, enquanto uma existência sofrida, teria valor negativo; comparando as duas, a primeira opção dominaria a segunda, pois 0 > -1, ou seja, seria melhor sequer termos nascido. Um ponto importante a ser notado, é que atribuir um valor cardinal a vida humana é algo que pressupõe a comensurabilidade da vida, isto é, você pode atribuir valores e comparar vidas.

Quem pense ser a vida algo incomensurável, dificilmente aceitará a proposta acima, tampouco considerará seja o que for acerca da ética populacional, que lida com questões envolvendo populações futuras.

Além disso, a pressuposição que alguns poderia objetar é o fato de a maioria das pessoas terem uma vida repleta de sofrimento, não só agora, mas ao longo da história. No entanto, poderíamos afirmar que todas as vidas, somente por virem a existir, possuem valor positivo, ‘independente do que ocorrer durante a vida’. Anencéfalos, crianças que morrem prematuramente teriam valor positivo, ainda que vivessem por um período de tempo curto. O mesmo vale para pessoas que vivem em miséria absoluta.

Avaliando os argumentos do livro, concluo que a proposta não vinga. O motivo principal diz respeito a inferência que pode ser feita a partir daí. Se aceitarmos o argumento do livro, podemos afirmar, sem grandes perdas, que seria melhor todos se suicidarem, evitando uma vida sofrida.

Outro motivo reside na recusa em aceitar que pessoas nasçam. Se  pessoas em potencial estão melhor não existindo, trazê-las a vida seria uma violação moral gravíssima, pois provavelmente estaríamos destinando a pessoa a uma vida repleta de sofrimento. Sendo um pouco menos exigentes, poderíamos afirmar que é permissível as pessoas em países desenvolvidos ter filhos, enquanto as em países subdesenvolvidos, não. Esta segunda inferência também não aceito, já que sugere um controle de natalidade severo.

Sendo assim, mesmo que o raciocínio exposto no livro não contenham nenhum falha lógica e que se aceite a premissa da assimetria entre pessoa vivas e aquelas não existentes, ainda assim seria bastante difícil aceitar a proposta, vide que ainda em uma situação indesejável, há pessoas que preferem viver a não existir.