Mary, mais uma vez

Tenho de admitir, o argumento de Mary não me causa a perplexidade que causa a certos filósofos. Inicialmente, porque penso ser essa uma questão resultante de uma confusão com o que se entende por “explicação”.  Alguém que domine todos os fatos científicos acerca da cor vermelho, não sabe o mesmo que alguém a experienciando?

Acredito que a resposta fornecida por Massimo aqui ajuda a dissolver a confusão, no entanto, tenho outras colocações a fazer. Primeiro, quando ao foco dos estudos os quais buscam a perspectiva de primeira pessoa como ponto de partida para análise. Até onde entendo, explicar algo é admitir que nossas percepções limitadas, são demasiado perigosas para serem tomadas como ponto a favor de uma posição filosófica. Já a algum tempo que a introspecção não é um método confiável de obter conhecimento.

Todavia, percepção e introspecção não são o mesmo, e alguém poderia objetar afirmando que quando sinto dor, não posso transferir a informação de todo. Mas sei que posso tranferir, seja através da empatia, seja por meio de explicações científicas, algo o qual a pessoa poderá usar para reconstruir a experiência. Talvez para alguns esta informação não seja tão valiosa quanto a presente quando experienciamos uma cor.

A existência da consciência fenomenal gera discussões pormenorizadas. Porém, de um modo geral, penso que a resposta para estas questões já esteja por aí, ou seja, as diversas funções cognitivas as quais contribuem para a consciência(awareness) geraram uma adaptação que nos permite ter uma ideia mais acurada do que ocorre conosco, e isto é inegavelmente um vantagem a qual utilizamos para superar competidores.

Concordo que ainda não atingimos uma explicação completa do que seja a consciência, mas daí não se segue que a atitude correta é admitir que determinadas experiências, sejam intransferíveis.

O retorno

Retornando a escrever, após algum tempo considerando as possibilidades da carreira. Planos provisórios para 2013(meio tarde, ja estamos em Março):

– Escrever artigos, muitos artigos. Há vários em forma de draft: Sobre aprimoramento humano, computacionalismo, caridade efetiva e racionalidade. Por hora, fique-se com os mais urgentes.

– Para o encontro de graduação da USP(2013), irei apresentar uma distinção básica feita entre racionalidade epistêmcia e instrumental. A primeira diz respeito a obtenção de crenças verdadeiras,a segunda, a eficiência em realizar objetivos práticos. Ser epistêmicamente racional, é ser metodologicamente disciplinado a ponto de atingir crenças prováveis através de um mapa acurado da realidade. Por outro lado, a  racionalidade instrumental diz respeito a capacidade do agente de atingir seus objetivos práticos.

Há uma série de detalhes adicionais importantes, como o debate com epistemologia tradicional e a formalização recente de conceitos como conhecimento, crença e evidência. No último caso, me alinho a epistemologia formal, e acredito que ter graus de crenças é uma maneira adequada de avaliar opções. Há quem faça isso implicitamente, quando põe as questões em termos de provável ou não.

– Promover a divulgação do transhumanismo. Esse objetivo é mais limitado. Não há um ambiente já formado como o de língua inglesa, onde futuristas escrevem sobre ficção científica, nanotecnologia, inteligência artificial de modo sóbrio. O que temos é jornalismo, o que não é algo mal. Todavia, o reconhecimento acadêmico é igualmente importante.

– Apoiar e divulgar grupos como GWWC e GiveWell acerca da avaliação de ONGs. Por vezes as pessoas tendem a doar $ sem ter uma correta especificação de como esse dinheiro será investido, ou seja, fazem um mal investimento. Penso que essa deveria ser uma das prioridades daquelas pessoas que acreditam na doação como forma de redução do sofrimento ou incentivo para pesquisas .