Confundidos pelo Cânone

A espécie humana, assim como outros primatas  tendem a imitar aquilo o que funciona. Na academia não é diferente, normalmente não iniciados copiam de forma tosca o que os professores dizem e fazem, e só depois de um tempo adquirem autonomia para perceber onde podem ser originais. Isto pode ser extendido para qualquer grupo, contudo, naqueles baseados em dogma, se rebelar não é visto com bom olhos.

Este comportamento não é de todo mal, para produzir algo original é necessário conhecimento acumulado. No entanto, há muito encenação.  Até os físicos perseguem fantasmas, quando desviam grande parcela dos seus recursos para uma linha de pesquisa, e deixam de avaliar abordagens não tão “quentes”.

Seguir os maiores nomes de uma ciência ou linha de pesquisa ajuda a saber o que alguém que se destaca produz, mas não responde como esta pessoa chegou lá.  Responder uma questão nem sempre depende de habilidade técnica. Muitos insights foram obtidos em situações incomuns, e geraram aplicações posteriores que não estavam nos planos de seu descobridor. O laser e a internet são exemplos que vem a memória.

Além disso, uma série de pensadores surgiram a margem das idéias mainstream. Céticos, anarquistas e alguns iluministas não eram acadêmicos, e deram  boas contribuições. Mas na situação atual, encenar somente não é suficiente, tem que se encenar com proprieda. O mercado força os indivíduos a darem respaldo,  através de sinalizações, como  publicações e conferências.

 

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Reputação

Há tempos um dos critérios adotados pela humanidade é medir o passado de uma pessoa, suas atividades e a “experiência” em um determinado assunto. No entanto, após a internet surgiram bolhas onde grupos específicos criam regras próprias e adotam-nas como forma de manejar as relações.

Pensando acerca das mudanças no sistema de publicação que estão para acontecer, é de se supor que foruns com sistema de karma e outras formas de medir a contribuição dos indivíduos, terão uma participação maior do que simplesmente o status de uma posição acadêmica. Além disso, há quem pense ser a academia nos moldes atuais um tanto arcaica, tanto o modelo de aula quanto a personalização do ensino.

A educação online é a bola da vez e muitos sistemas online empregando técnicas de aprendizado de máquina para medir o desempenho dos aluno é bem melhor do que o olho dos professores, com seus recursos cognitivos limitados.

Na verdade, conseguir medir de forma mais precisa as falhas das pessoas ajuda a encontrar os pontos onde ela pode contribuir, e ser melhor aproveitada.

Como a desigualdade não tende a diminuir, o que se poderá fazer é aumentar a taxa de mobilidade entre grupos como forma de diversificar o ataque a problemas comuns a grande parte das pessoas, como os riscos existenciais. Em certo sentido, as diferenças de disposições podem ser conferidas com maior transparência a médio prazo, e isto pode ser bom ou mal, já que muitas posições de destaque são sustentadas por pessoas com capacidade duvidosa para a função.

Automação e Trabalho

Em um dos últimos livros sobre singularidade o autor avalia como avanço da automação irá afetar os trabalhadores(entre outras coisas). Consensualmente se aceita isto: a tendência é automatizar todas as funções consideradas operacionais e repetitivas. No entanto, mesmo aquelas atividades consideradas de alta qualificação irão ser sofrer com a contínua substituição de cargos. Duas alternativas surgem de imediato: regulação e mesclagem.

Certamente haverá resistência para  posições não sejam substituídas por robôs visivelmente superiores; pode ser o caso que se retarde o processo de substituição. Mas acredito que isto irá inevitavelmente ocorrer, por questões de eficiência. Agentes com capacidade de coordenação superior, ocupam altos cargos porque as características que possuem são difíceis de serem copiadas, ou mesmo de serem encontradas em um único sujeito. Sendo assim, indústrias dificilmente deixarão de implementar inovações quando se tornam viáveis economicamente.

A outra alternativa é adquirir habilidades que não ponham em pé de igualdade com as máquinas ou nos dêem capacidade para adquirir outras funções. Isto já ocorre. Quando alguém é destituído de uma posição, pode permanecer desempregado ou adquirir qualificação para atingir novas posições. Tecnologias de todo tipo podem ajudar nisso. Novos modelos de educação e reformulações institucionais epistemicamente guiadas podem contribuir, componentes externos de interface homem-máquina também. De um modo geral, atingir avanços significativos em larga escala é mais fácil via tecnologia.

Em suma, o processo de automação irá continuar assim como a economia irá crescer, pace as crises. Funções que exigem menos sofisticação serão gradualmente sendo substituídas. Possíveis impedimentos legais podem retardar o processo.

Alarmismo ou Perigo Real?

Quando se trata de questões globais com implicações éticas para futuras gerações, tende-se por vezes a ser confundido com alarmistas. Existem inúmeras causas deste gênero, e não é fácil distinguir as pessoas com atitude sóbria, daquelas que aproveitam as preocupações acerca do aquecimento global para lançar mais um livro.

O aquecimento global é um problema sério, mas não é o principal nem o único, é apenas o mais fácil de ser compreendido.

Há quem pense ser a inteligência artificial amigável o maior dos problemas a serem solucionados, mas para entender isto é necessário percorrer distâncias inferenciais longas. De fato, o Exterminador do Futuro e outras obras de ficção trabalham o tema, mas estes exemplos são perniciosos em vez de informativas, pois pecam por antropomorfismo.

O ponto inicial para distinguir entre tipos análises é avaliar os dados, sem se envolver em histórias ficcionais que soam mais prováveis. Por exemplo, afirma-se que um dia a Internet irá ganhar consciência própria, surgindo a partir da interação das partes e aumento da “complexidade”.

Considero este cenário bastante implausível, põe um peso excessivo na analogia feita com processo de otimização que é a evolução. Somente em um sentido vago é que a Internet “evolui”.

Filosofia como Estratégia

Tão importante quanto responder bem uma questão, é escolher qual questão responder. Inicialmente porque os recursos cognitivos são limitados, e não se pode emprega-los em problemas cuja relevância é dúbia.

Se descobríssemos amanhã que um determinado autor pós-estruturalista tem características de pós-utópico, nada de muito significante ocorreria. Porém se obtivéssemos um avanço em uma de nossas ferramentas metodológicas, certamente, uma série de outros problemas poderiam ser resolvidos com mais eficiência. Ou seja, no segundo caso, o ganho seria significativo.

As duas ‘linhas’ poderiam seguir concomitantemente, mas isto não só reduziria a velocidade de avanço, como empregaria recursos desnecessariamente.

Antecipando possíveis críticas, uma das formas de proteger um programa de pesquisa é adicionar termos como “valor intrínseco” a discussão. Se alguém deseja que sua linha permaneça obtendo investimentos, afirma que há um valor intrínseco nessa pesquisa, sem nenhum comprometimento com aplicações ou produção de algo visível.

De certo, há casos onde não é óbvio a relevância de uma linha, algo que é só depois de algum tempo. E é por este motivo que pesquisas em ferramentas metodológicas é importante. Sem elas, não saberíamos como escolher entre vários problemas em aberto.

Leituras do dia

Skyrms, B. The Evolution of Social Contract

Busca inspiração em teoria dos jogos como forma de explicar determinadas idéias defendidas por contratualistas, entre elas: justiça, contrato social, obedecer regras, bens comuns etc. Formalizar estas ideias é interessante já que o contratualismo está entre as teorias normativas atuais que ainda podem ser defendidas. Além disso, se admitirmos a origem de intuições acerca da justiça, cooperação e altruísmo em geral na forma de jogos, fica um tanto menos complicado acomodar certos aspectos normativos como o que fazer em situações há preferências conflitantes.

 

Baginni, J. The Philosopher Toolkit: A Compendium of Philosophical Concepts and Methods

 

Formação básica em filosofia é importante para pessoas que necessitam entender porque os filósofos não gostam de responder de forma rápida os problemas, e preferem elaborar sistemas teóricos de todo tipo para estar de acordo com suas intuições. Esse livro é basicamente uma caixa de ferramentas com as principais distinções conceituais e termos utilizados por filósofos seja para criticar, seja para clarificar teorias, noções e argumentos.

 

Stiglitz, J. Freefall: America, Free Markets and the Sinking of the World Economy

 

A crise econômica de 2008 surpreendeu inúmeras pessoas, incluindo economistas. Vários livros foram escritos buscando entender as causas, conseqüências e possíveis soluções. Este é um deles. Basicamente, é Keynesiano, defendendo o investimentos do governo para salvar a economia. Outro que li e segue na mesma linha é o End This Depression Now, do Krugman.

Exigências absurdas

Por vezes alguns autores utilizam exemplos absurdos para desprovar teorias rivais. Isto é comum em debates onde um dos critérios de avaliação é o nível de exigência o qual um agente terá de cumprir.

Para entender melhor, imagine que você responda uma pergunta em um caso hipotético, e a resposta envolva exigências elevadíssimas, que por conseguinte, são impraticáveis. Acha que este critério, praticabilidade, é um ponto a favor de uma teoria? Certamente uma teoria moral que ninguém possa adotar é inútil. Por outro lado, uma teoria que todos consigam adotar sem esforço se torna trivial.

Encontrar um equilíbrio, ou seja, uma prescrição que não seja demasiado exigente, aplicável por uma parcela não negligível da população, é algo que requer um elaboração adicional.

Levanto esta questão porque uma das objeções ao utilitarismo é ser demasiado exigente, requerendo que o agente sacrifique inúmeros dos hábitos, em prol de causas urgentes as quais necessitam de intervenção imediata.

Acredito que não necessitamos ir tão longe a ponto de investir toda renda em causas humanitárias ou ambientais. Contudo, acredito que devemos dedicar uma parcela dos nossos recursos para  solução ou amenização destes problemas. O impasse é descobrir de acordo com suas tendências, a exata proporção do esforço.

Idealistas e Praticantes

Crie-se um espectro onde seus pensamentos mais abstratos estão no fim, enquanto seus pensamentos direcionados as questões mais próximas estão no início. Faça isto, e você terá uma ferramenta de análise que indica a variação entre tópicos os quais as pessoas utilizam diversos tipos raciocínio.

Para questões abstratas e distantes como pessoas futuras que irão nascer, utilizamos conceitos e modelos os quais não se atém características demasiado específicas, e sim a padrões de funcionamento que por ventura possam melhorar o mundo através de intervenções a longo prazo.

Em questões mais próximas e práticas como o que você fará hoje para ganhar dinheiro, empregamos conceitos instrumentais e heurísticas que resolvam o problema, sem nos preocupar tanto com um possível padrão subjacente que governem o modo como se solucionou uma questão.

Idealistas tendem a querer salvar o mundo através princípio último que será aplicado indistintamente do contexto, enquanto praticantes preocupam-se apenas em não perder o patrimônio que já possuem. Os dois tipos de raciocínio podem residir em um mesmo indivíduo, sendo aplicáveis as suas devidas questões quando formuladas. Porém cada um destes pode levar a equívocos que o outro ajuda a amenizar.

Um idealista pode se ater aos padrões sem preocupar-se com as aplicações e conseqüências imediatas das sua utilização, algo que o praticante não admitirá, questionando o primeiro acerca das implicações. O praticante por outro lado pode adotar atitudes demasiado simplistas, afirmando que não há motivo para buscar princípios últimos que expliquem esta situação de forma tão detalhada.

Como é de se esperar, o ponto de resolução não se encontra no divisória entre as duas formas de raciocinar, e sim no equilíbrio que o problema permite atingir sem que os custos não se tornem maiores do que os benefícios advindos da solução.